domingo, 10 de agosto de 2008

O QUE ACONTECE SE NÃO HOUVER PETRÓLEO EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE?...

Pode ser uma salvação para os São-tomenses, como pode ser uma desgraça…

Há um ditado em São Tomé: “Para ficar rico, tudo o que você precisa fazer é ser ministro por 24 horas”.

Veja, por exemplo do ministro. Lima, e todos em São Tomé conhecem a sua história: quando ele trabalhava para o banco central do país, ele fez um acordo com uma empresa de Liechtenstein para criação de uma moeda são-tomense comemorativa do milénio. O único problema é que uma parte dos lucros iria directamente para ele. Lima foi sentenciada a dois anos sob condicional -o que não o impediu de ser nomeado ministro.

Lima estudou na Alemanha Oriental. Ele fala alemão. Quando telefonamos para pedir uma entrevista, ele gritou ao telefone, em alemão: “Petróleo! Petróleo! Petróleo! Todo mundo vem aqui para escrever a respeito, mas ninguém quer nos ajudar a extraí-lo!” Então ele desligou.

Mas os problemas não são puramente domésticos. A história de São Tomé e Príncipe é uma longa história de intervenção estrangeira. Quando os portugueses descobriram as ilhas no século 15, elas eram desabitadas. Navios portugueses compravam escravos africanos aqui com a intenção de enviá-los para as Américas. Os escravos plantavam cana-de-açúcar e posteriormente café e cacau.

Não houve grande mudança -por séculos – até uma ditadura em Lisboa ser derrubada por um golpe militar em 1974. Os portugueses concederam rapidamente a independência para suas últimas colónias remanescentes, incluindo São Tomé e Príncipe, onde 100 mil negros africanos e outras pessoas multirraciais repentinamente tinham seu próprio país.

Trinta e três anos depois, a ilha ainda enfrenta dificuldades. Apesar dos US$ 600 milhões em ajuda que o país recebe desde a independência, o padrão de vida continua caindo. Segundo o Banco Mundial, mais de 50% da população é considerada “pobre”.

Quando depósitos de petróleo foram detectados nos anos 90, o primeiro empresário a aparecer foi o sul-africano descendente de alemães chamado Christian Hellinger, que ganhou fortuna com os diamantes angolanos. Ao chegar, ele supostamente deu a cada ministro um gerador. Logo ele adquiriu o apelido de “Rei de São Tomé”. Ele transferiu sua empresa de transporte aéreo para cá e foi o primeiro a explorar petróleo, isto é fazendo pesquisa de petróleo na zona de morro –peixe.

Hellinger trouxe uma empresa para São Tomé que desde então só significaria problemas. A pequena empresa nascida na Louisiana e actualmente sedeada em Houston, se chama ERHC (Environmental Remediation Holding Corporation). Na época ela era especializada em dar destino aos resíduos da indústria do petróleo e não tinha entendimento nenhum de produção de petróleo. Mas a ERHC convenceu o governo a assinar um contrato em 1997. Por US$ 5 milhões a empresa recebeu direitos exclusivos sobre a comercialização e exploração de todas as reservas de petróleo de São Tomé pelos próximos 25 anos. A organização não-governamental Global Witness posteriormente chamou isto de “um dos acordos mais chocantes de todos os tempos”.

O país fez acordos com outras empresas, incluindo a Exxon Mobil, mas aparentemente foram igualmente ruins. O presidente Fradique conseguiu renegociar alguns dos acordos, mas a ERHC, agora de propriedade de um nigeriano influente, ainda ganha sua parte das concessões e de novas descobertas de petróleo.

O segundo problema de São Tomé sempre foi sua poderosa vizinha, a Nigéria, que não estava interessada em permitir que a minúscula nação lucrasse com petróleo em seu próprio quintal. A Nigéria contestou a fronteira marítima entre os dois países e forçou São Tomé a aceitar um acordo para formação de uma “Zona Conjunta de Desenvolvimento”, no qual 40% da receita da produção de petróleo iria para São Tomé e 60% para a Nigéria.

Quando os dois países leiloaram as primeiras licenças de exploração em 2003 e 2004, as coisas não transcorreram da forma como os são-tomenses esperavam. Grande parte das companhias de petróleo se manteve distante, exceto no caso do mais promissor sector na zona de petróleo, conhecido como Bloco 1, pelo qual um consórcio da Chevron e Exxon Mobil conquistou a licença de exploração por US$ 123 milhões. Todavia, foi um dia monumental para São Tomé. Sua parcela de 40%, US$ 49 milhões, quase equivalia ao orçamento anual do país.

Mas a Nigéria reteve o valor, usando seu controle do dinheiro para forçar São Tomé a conceder licenças a certas empresas pequenas na próxima rodada de leilão -empresas de propriedade de empresários nigerianos com laços estreitos com os políticos do país. O Procurador-geral de São Tomé posteriormente expôs este esquema.

AINDA UM MODELO? AINDA PRECISA DE UMA LUZ NO FUNDO DO TÚNEL…

Independentemente de tudo, os são-tomenses deixaram de acreditar na classe política do dirigente, vêm neles um desinteressar nas soluções que os País enfrentam.

As primeiras sondagens experimentais foram realmente decepcionantes. A Chevron encontrou petróleo a uma profundidade de cerca de 1.700 metros, mas em quantidades tão pequenas e de qualidade tão ruim que não era “comercialmente viável”.

A busca por petróleo nem sempre leva a resultados claros. Dados sísmicos promissores não são garantia da existência de tanto petróleo quanto antecipado. É um pouco como “póquer” você tem uma boa ideia e faz sua aposta, e com sorte pode ganha-la. Descobrir novo petróleo se tornou mais difícil. As empresas estão sondando em profundezas cada vez maiores, mas com o aumento do preço do petróleo, a exploração a grandes profundidades passa a valer a pena,e mas custos elevadíssimos…

Os chineses exploram actualmente no Bloco 2, enquanto os americanos exploram o Bloco 3. A Addax, uma empresa suíça-canadense, está convencida de que petróleo pode ser encontrado a ponto de ter comprado direitos de exploração em todos os quatro blocos. Ela adquiriu a participação da Exxon no Bloco 1 no Outono de 2007 por pouco menos de US$ 78 milhões. O representante da empresa, um americano chamado Tim Martinson, disse que é importante manter o optimismo neste ramo, e que “alguma produção” certamente se materializará, mas dificilmente antes de 2015.

Quase ninguém mais acredita que São Tomé será um modelo para o mundo. Joaquin Sacramento, um pescador, se encontra em uma praia na cidade de São João dos Angolares, a duas horas ao sul da capital. Ele está lixando seu barco de madeira, que colocou sobre blocos na praia, sob uma chuva quente. Ele é um homem de 39 anos e pele bem escura, vestindo uma camisa vermelha de time de futebol.

A verdadeira questão em São Tomé gira em torno dele, se pessoas como Sacramento algum dia verá algum benefício do petróleo e se as visões optimistas de Saches e de sua equipe foram exageradas.

Sacramento não tem respostas. “Nós somos pescadores”, ele diz. “Alguém tem que pescar. O petróleo é para os políticos.”Pode ser uma salvação para os Santomenses, como pode ser uma desgraça…

Ele sabe sobre o mar ele conhece seus humores e a melhor hora do dia para pegar certos tipos de peixe. Mas ele sabe muito pouco sobre petróleo. Ele escutou que o mar fica vermelho quando as empresas perfuram e duvida que isto fará algum bem aos peixes. “O oceano é azul”, ele diz. “É com que estão acostumados.”

Compilado por Aquiles Pequeno

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