segunda-feira, 1 de setembro de 2008

ASSALTO AOS SUPERCONSTELLATION DA GUERRA DE BIAFRA

Era de esperar que alguma pessoa gostasse muito pouco da presença dos restos dos dois Superconstellations no aeroporto de São Tomé. Mais se estão a ser reutilizados e ainda mais se tem o apoio de um amplo e diverso grupo de gente que solicitou oficialmente, já faz um ano, a declaração dessas velhas aeronaves como Monumento Histórico à Ajuda Humanitária, por tratar-se dos últimos vestígios da Guerra de Biafra nas Ilhas (vejam a web especial da Campanha, ainda aberta:

http://es.geocities.com/caueass/caue_projetos/caue_biafra/caue_stpxbiafra.htm


O caso é que em uma última visita, a passado Julho, com uns colegas do Seminário sobre a Educação Ambiental e o Eco-turismo, que fizemos de noite (os aviões tornaram-se fantasmagóricos numa noite de lua cheia…), o guarda, muito amável, nos explicou que recentemente tiveram de acrescentar a segurança por causa da perpetração de um roubo, feito por um grupo muito numeroso de cidadãos nigerianos (ao redor de umas 15 pessoas falou o guarda) que vinham com um camião e entraram pela parte de trás.

Ficamos surpreendidos. Mas mais surpreendido foi o guarda que teve que afugentar os agressores com todas as armas ao seu alcance e pedir ajuda aos vizinhos. "Lutamos, sim! Pancadas, porradas aos berros, mostramos machim… Tiros não porquê não tinha espingarda nessa altura… Um deles saiu ferido, com certeza…". Trás esse incidente -assegura os donos das "Asas do avião" (que assim chama-se o restaurante que reutiliza o espaço) decidiram acrescentar as vigílias.

"Essas gentes não gosta dos aviões. Lembranças terríveis de genocídios. Gostariam de derrubar totalmente estes monumentos", falou o guarda. "Eram pretos, mas estrangeiros. Falavam língua Nigéria". Explicou que tiveram tempo de levar parte de um motor que um dos supercontellation ainda tinha dentro. Quiçá para peças, quiçá para vender os metades, quiçá nem tão sequer para isso: uma demonstração de força?

Parece que isso passou há já uns meses. Mas foi um acto de simples roubo ou tinha fintes de qualquer significação política? Ver para crer… ou quiçá também para duvidar e crer mais numa fantasia do guarda? O certo é que o motor de reposição que se mantinha dentro do CF-NAL já não está no cenário.

Por sorte, ainda estão em pé essas magníficos aviões, com os que a Joint Churches Aid (JCA, também conhecida como "Jesus Christ Airlines") levaram com mais de 2000 voos nocturnos, milhares de toneladas de ajuda humanitária a Biafra, para mitigar a fome voraz com a que a Nigéria pretendia reduzir os separatistas dessa república africana. Os aviões ficção lá como lembrança imponente da contestação internacional contra a barbárie da guerra, memória sossegada contra o que nunca teve que acontecer.



Entretanto, sugere-se essa cervejinha sossegada, baixo o fresquinho as asas, antes de empreender a volta a Europa, e brindar com veemência por esses aviadores, heróis quase anónimos, que levaram cada noite esses aviões para o continente, que desafiaram o fogo antiaéreo, para salvar vidas humanas... Há 40 anos já!

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